Uma voz dos moradores de Paraisópolis

Joildo Santos, vice-presidente da União dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis, publicou artigo sobre a operação Saturação, que mantém policiamento intenso na comunidade. Joildo não é contra, mas cobra a execução de políticas sociais para o bairro e atenção permanente do poder público, não apenas na forma de polícia repressiva. Fato é que Joildo e as outras lideranças do bairro, ligadas ou não à União dos Moradores, dialogam com o crime organizado e, em algumas situações, até se submetem a ele, sem que isso signifique cumplicidade ou apoio ao crime. Longe disso. O diálogo é resultado da convivência inevitável. Em Paraisópolis, todos sabem quem são as pessoas ligadas ao tráfico e, em cada esquina, grupos a serviço do comércio de drogas vigiam quem entra e quem sai da comunidade. Nesse sentido, todos na comunidade se submetem a um poder paralelo. Há outra forma de atuar na comunidade? A voz de Joildo deve ser respeitada e ouvida, pois ele tem uma liderança legítima. O que Joildo defende é a presença do Estado, para dar qualidade de vida e segurança aos moradores. Segue o artigo:

Pela imediata retomada da Virada Social em Paraisópolis

Neste dia 29 de outubro a Polícia Militar anunciou uma operação denominada “Saturação”, com a presença de 600 homens em nossa comunidade. Esta operação repete outra com as mesmas características, ainda que com metade do efetivo de soldados, ocorrida há exatos 1366 dias.

Na época nossa entidade defendeu que problemas sociais devem ser tratados com política social, e não apenas por meio de ações deste tipo. Ainda mais numa comunidade com as características da nossa, que apesar de ter mais de 60 anos, apenas nos últimos 10 anos o Estado se fez presente por meio de canalização de córregos, abertura e asfaltamento de ruas, a posse legal das casas que já morávamos há décadas, a regularização dos serviços de água e luz.

Faltam ainda escolas, creches, hospital, quadras esportivas. Não temos um único cinema, clube ou faculdade para mais de 100 mil moradores, dos quais 7 em cada 10 com menos de 30 anos. Dentre esses, o desemprego é alarmante, e os empregados dificilmente ultrapassam 1 salário mínimo de renda.

Tendo em vista essa realidade, após a primeira operação Saturação, foi criada pelo governo dialogando com a comunidade a chamada “Virada Social”, que definiu 126 ações do Estado na comunidade, como a construção de mais um CEU, Clube-Escola, Centro de Educação Ambiental, CREAS, Parque Paraisópolis, CIC, Casa de Cultura entre outros. Destas, apenas 22 foram realizadas. As outras 104, 81%, ficaram no papel.

Portanto, a União dos Moradores exige o cumprimento das ações prometidas na Virada Social, sob o risco de alimentarmos um círculo vicioso que não enfrenta os reais problemas de nossa comunidade, e joga nos ombros do povo trabalhador a responsabilidade que é do Estado, no caso oferecer dignidade e oportunidades para todos.”

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *