O Hoje em Dia, da Record, exibiu reportagem sobre a disposição de alguns brasileiros de adotar crianças no Haiti. O caso lá é gravíssimo e merece atenção. Mas brasileiro dizer que pretende buscar crianças lá para aumentar a própria família reflete uma certa insensibilidade com o problema no Brasil, gravíssimo. Por aqui, o número de crianças abandonadas tem dimensões de catástrofe social. O Brasil está com uma imagem positiva lá fora, tudo bem. Mas tem gente que começa a perder a noção da realidade. Por falar em noção da realidade, é importante saber que adoção não deve servir de política social: a adoção é um ato de amor, que atende necessidades individuais, não coletivas. Há alguns anos, em reportagem para a revista Veja, intitulada “Os Filhos de Ninguém”, tive a oportunidade de conhecer situações de crianças e adolescentes em orfanatos. Havia crianças, e não eram poucas, que tinham vivenciado o segundo abandono. Famílias adotaram crianças e depois se arrependeram. Começou o conflito e a corda, como sempre, arrebentou pelo lado mais frágil. Crianças voltaram para o orfanato ou deixaram a casa da segunda família, para morar na rua. As adoções que deram certo foram aquelas em que houve amor à primeira vista. Quem adotou viu na criança o filho verdadeiro. Foram casos em que a questão biológica era apenas um detalhe desprezível. Desprezível mesmo.
O Haiti é aqui
janeiro 21st, 2010
Joaquim de Carvalho 

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